ANARCOCAPITALISMO E CONSERVADORISMO


Recentemente a internet se agitou com uma discussão entre Raphael, do canal no YouTube, Ideias Radicais e o Nando Moura que começou a partir de uma discussão acerca da necessidade (ou não) de regulamentação estatal por meio de dispositivos legais que garantiriam o capitalismo, tema fundamental numa discussão entre conservadores e Anarcocapitalistas, contudo extrapolou essa questão e foram abordados muitos outros que tornaram o debate intelectualmente pobre. Neste texto eu procuro trazer o pensamento do Raphael, não a fim de refutá-lo, e sim de problematizá-lo contextualizando com a visão conservadora, com o intuito de refinar a discussão.

O que o Raphaël disse em defesa da inexistência do Estado é o que precisa ser debatida de fato entre conservadores e anarcocapitalistas. A base do pensamento anarcocapitalista é o princípio da não agressão. Embora o Raphael não tenha mencionado diretamente nos vídeos que disponibilizou no seu canal para este debate este princípio, ele fez referência indireta algumas vezes, como por exemplo quando ele negou que o princípio fundamental seja a liberdade, dizendo que era a propriedade e, por fim, quando ele disse que o Estado não deveria existir porque escraviza, rouba e etc.

A grande discussão entre conservadores e anarcocapitalistas neste caso é que ambos consideram válida a ideia de não agressão na sociedade, contudo ambos enxergam isto por perspectivas diferentes. Enquanto o anarcocapitalista enxerga isto como um princípio, o conservador vê como um fim. Deste modo, para um anarcocapitalista qualquer agressão é, em princípio, imoral, enquanto que para um conservador é possível que, em alguns momentos, algumas agressões sejam impetradas para garantir que a sociedade viva pacificamente, ou para que não haja um ambiente de guerra de todos contra todos.

Deste modo anarcocapitalistas precisam refinar seu ponto de vista, sobretudo porque existem questões que confrontam esse princípio, como no caso do aborto. Considerando que um embrião é uma pessoa, por exemplo, feriria tanto o princípio de não agressão a mãe abortá-lo, quanto feriria obrigá-la a gestá-lo.

Um pai, por exemplo, não teria direito de levar seu filho, recém-nascido, para fazer o teste do pezinho. O teste do pezinho é uma agressão ao bebê, mas é uma agressão necessária para coletar informações importantes sobre o estado de saúde do “agredido”. O mesmo valeria para uma vacina ou uma injeção qualquer. Um pedófilo que conseguisse o consentimento da criança ou ainda uma pessoa que raptasse seu filho não seria criminosa e nem estaria ferindo o princípio de não agressão.

Na sociedade capitalista o contrato é algo importante, numa sociedade de livre mercado é ainda mais importante, numa sem o Estado seria imprescindível. O não cumprimento de um contrato é imoral, mas não é uma agressão. É evidente que o mercado tem instrumentos pra desestimular a quebra de um contrato, mas isto não engloba o imponderável. Se uma empresa quebra o contrato, não o cumpre, todo o sistema cai em descrédito e pode levar ao colapso do livre mercado e a uma situação na qual a pessoa que foi lesada com o descumprimento do acordo a agredir a outra.

O Nando Moura, inclusive deu o exemplo, de uma mulher sendo estuprada numa sociedade anarcocapitalista e sem dinheiro pra pagar. O Raphael deu uma ideia que poderia ser, inclusive, uma solução aceitável para um conservador. É possível sim que numa sociedade conservadora as pessoas possam pedir investimento para empreenderem em processos judiciais em troca de parte da indenização. Sabemos que num ambiente de mercado as pessoas podem conseguir investimento para os seus empreendimentos, como também sabemos que podem não conseguir, e caso  esta mulher não conseguisse o investimento não haveria punição para o estuprador. Qual o perigo disso? A mulher estuprada, seu marido, seu pai, seus amigos se juntarem e matarem o estuprador que jura que é inocente e a família do estuprador revidar e isso gerar uma guerra de todos contra todos. Neste caso o princípio de não agressão teria ensejado uma sociedade violenta.

A posição conservadora cética ao anarcocapitalismo não se dá apenas por haver a possibilidade de uma guerra de todos contra todos. Há uma preocupação com a justiça, com a dignidade humana. Suponhamos que uma mulher acusou um homem de estupro. Não sabemos se ele é inocente ou não. Ela conseguiu investimento para sua empreitada. Fez propaganda, os jornais e as revistas manipulam a informação para condenar de antemão o acusado. Quem investiria nesse cara? É um investimento muito arriscado, ele poderia até conseguir, mas a chance de não conseguir quem aposte nele é muito maior e, caso não conseguisse, seria feita uma grande injustiça. Injustiça que pode acontecer numa região com Estado também, porém as garantias são menores e imprevisíveis num ambiente idealizado do qual não se conhece.


Por fim a posição Anarcocapitalista e a posição conservadora não são irreconciliáveis, ambas são pacifistas. Um conservador não discorda da posição feminista que diz que a mulher tem autonomia sobre seu corpo, o conservador discorda quando essa posição é levada ao absoluto, não considerando que em muitos casos o voluntarismo dela suprime o direito a qualquer pessoa de não ser morto sendo inocente, deste modo o conservador não teria nada contra o aborto se o aborto não matasse uma pessoa. Do mesmo modo que não teria nada contra a inexistência do Estado e nem que o princípio de não agressão é instrumento básico necessário se fosse comprovado que este é o meio mais eficaz de garantir a justiça e o estabelecimento de uma sociedade no qual as pessoas convivam de forma justa e pacífica. 

2 comentários:

  1. Samuel, anarco-capitalismo não existe. Essa palavra é uma aberração. É simples, é só estudar que é anarquismo e o que é capitalismo, e você chegará a suas próprias conclusões. Esses panacas de internet que defendem isso são uns ignorantes... kkk

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  2. O neo-anarquismo de cor laranja não é apenas um meio de cooptação de filhinhos de papais para minar o futuro de uma elite intelectual com um modelo ideologicamente anômico antinacionalista. É um movimento supranacional que recruta essa massa para o cavalo de Troia que visa corroer as bases do Estado, não para torna-lo obsoleto, mas para pôr nos assentos dos poderes jovens líderes comprometidos com os velhos social-democratas fabianos para a gestão de uma política de espoliação sem precedentes, gestando um monstro chamado oligopólio, para sobrepujar um poder inalcansável pelos poderes instituídos; enquanto agraceia as minorias com o implemento incondicional da agenda da ONU, converte o seu parlamentarismo republicano em um órgão kremliniano tecnojuristocrata do executivo da UNASUL, que irá destituir qualquer governo que se oponha.

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