A Estratégia do governo Dilma

Samuel Farias - Eduardo Cunha e Dilma
Tal qual Roberto Jefferson em 2003, Eduardo Cunha é um daqueles personagens que fazem eclodir a realidade do que é a política. Sua ascensão trouxe, pela primeira vez, de fato, instabilidade ao projeto petista de poder. O seu perfil agressivo e pragmático e sua forma, digamos, "franca" de fazer negócio acuaram o governo, mas caminham para um acordo que preserve a ambos.

Evidentemente, não se pode atribuir apenas a ele toda a vulnerabilidade do governo, a incompetência, o despreparo da Dilma, a corrupção do PT, o trabalho da imprensa denunciando, a crise econômica e a Operação Lava Jato nas mãos do juiz Sérgio Moro levaram o PT e Dilma para a situação que se encontra atualmente, que só não levou ao impeachment porque o partido cometeu crimes manobrando as contas públicas, recebeu dinheiro público e do crime na sua campanha, mentiu nas eleições e comprou apoio político e tempo de Tv

O governo já esteve pior. Enquanto Moro prendia empresários e ex-políticos petistas ficava claro e transparente que o partido e o governo haviam parasitado a Petrobrás sugando todo o dinheiro público possível instalando um esquema para manutenção do partido no poder.

Contudo, ao reconduzir Rodrigo Janot a procuradoria, o PT vem conseguindo se sair ileso e manipulando a investigação de modo que o partido e seu políticos sejam poupados e a responsabilidade recaia exclusivamente sobre seu maior adversário: Eduardo Cunha.

No início, para tentar dividir a responsabilidade do governo nos crimes apontados na Lava Jato, os alvos eram Aécio Neves, líder da oposição, e os presidentes do legislativo federal, Renan e Cunha. Como não era interessante para o Procurador perder o apoio da oposição, pois precisaria dela para ser reconduzido no Senado, Aécio não foi indiciado. Diante deste cenário, Renan aliou-se ao governo e agora é poupado por Janot, tendo a investigação contra si parada. O próximo passo é conseguir ou uma aliança com Eduardo Cunha ou derrubá-lo antes, usando o mesmo artifício: O Ministério Público Federal, por meio do Procurador Geral da República, como arma de ameaça e chantagem.

Para tanto, Rodrigo Janot "vaza" para a imprensa informações sobre "supostas" contas de Eduardo Cunha na Suíça. O objetivo, é óbvio, pressionar politicamente para que ele seja ameaçado com uma cassação política ou efetivamente cassado, sem que seja condenado na esfera jurídica.

Simultaneamente, o governo adota a estratégia de colar a pecha de que o impeachment é a pauta do Eduardo Cunha e não uma pauta popular. Com o auxílio da imprensa mainstream, concentra todos os holofotes no presidente da Câmara dos Deputados,somado aos vazamentos seletivos e incomprovados do Procurador, faz parecer que o impedimento de um governo criminoso, como é o da Dilma Rousseff, é apenas uma ação de vingança pessoal.

Após a decisão da Teori e Rosa Webber no STF, Eduardo Cunha está com a faca e o queijo na mão. Ele pode, a qualquer momento, acatar algum dos inúmeros pedidos e deflagrar o processo de impeachment da Dilma Rousseff, mas isso, e ele sabe, pode custar-lhe caro, pois a sua serventia, tanto para o PT, quanto para o PSDB é exatamente esse poder. 

Como é evidente, o governo teme essa atitude e tenta ameaçá-lo para ou derrubá-lo antes, ou se unir a ele. Hoje o ex-presidente Lula busca apoio dentro do PT para tentar fazer uma aliança com Cunha. Ora, nada mais próprio da política do que havendo possibilidade de grande prejuízo para duas forças eles, mesmo se odiando, se unam a fim de coexistirem ao invés de guerrearem, porque num confronto direto, afinal, qualquer um pode sucumbir.

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