O personagem do impeachment


A esquerda brasileira, ao perceber o barulho causado pelas ações de Eduardo Cunha contra o PT na Câmara dos Deputados logo o apelidou de Frank Underwood. O personagem inteligente e – por que não? – carismático da série da Netflix que age sem ética em busca do poder.

Apesar de ser um apelido, do ponto de vista político interessante, Eduardo Cunha está longe de ser semelhante ao personagem interpretado pelo ator Kevin Spacey. O Presidente da Câmara dos deputados é bem menos sutil e discreto que o protagonista de House of Cards e suas ações são mais previsíveis. Na verdade Eduardo Cunha tem um estilo político semelhante a de Cercei Lannister, de outra série, ainda mais popular, Game Of thrones. Tanto Cercei, quanto Cunha, são reativos, explosivos e dificilmente recuam. Mesmo os acordos de aliança estabelecidos são feitos em forma de ataque, seja pela força, seja pelo dinheiro, seja pela posição de poder.


Frank é alguém que, ninguém sabe para que lado joga. Ele conversa com todos, avança despercebido e vai se tornando necessário. Possui um perfil pragmático, bem menos sanguíneo e tem uma autoimagem forte. Por isso não faz o menor sentido compará-lo a Eduardo Cunha.

Se há alguém no ambiente político com perfil que se assemelha ao de Frank Underwood é o vice presidente Michel Temer. Nunca teve uma base de votos ampla em São Paulo. Mal conseguiu se eleger a Deputado Federal, contudo, apesar disso, deixou-se usar pelo PMDB para ser a voz da aliança do partido na relação com o PT de Dilma Rousseff. Sempre foi por meio dele que o partido conseguia os cargos, as emendas e os ministérios no governo, em resumo, ele era a voz da chantagem peemedebista.

Temer não possuía nenhuma relevância política para a massa populacional. Foi mais notado por ter uma bela esposa do que por ser alguém importante no governo.

Como sabemos, se a relação do Congresso nacional com o governo só se mantinha graças ao toma lá, dá cá promovido pelas administrações petistas, no segundo mandato a relação se deteriorou sobremaneira.

Apesar da piora na relação com o congresso e mesmo quando o Planalto tentou enfraquecer o PMDB dando força ao PSD de Kassab e ao PROS dos irmãos Gomes. Mesmo com a vitória de Eduardo Cunha e de Renan Calheiros. Mesmo com a maior manifestação da história da nossa democracia pedindo a saída da Presidência da República em março deste ano, mesmo quando o Procurador Geral da República, com a intenção de ser reconduzido ao cargo em Agosto, dividiu a crise da Lava Jato com o Congresso colocando os nomes dos Presidentes das duas casas legislativas entre os investigados, ainda assim a situação política estava longe de dar os contornos para a crise que estamos hoje.

Diante dos erros do governo, a reação de Cunha foi, explosiva, como todas as reações da rainha Cercei quando é confrontada por algum adversário. A de Renan foi menos intempestiva. A de Michel Temer foi de se apresentar como a possibilidade de corrigir a articulação política, melhorar a comunicação com o Congresso e evitar que se agravasse o desgaste com os presidentes do legislativo.
Michel Temer então, de um deputado Federal de pouca expressão no seu reduto eleitoral, se tornou, além de vice-presidente, o homem forte do governo na relação com o parlamento, com um agravante, Dilma não poderia destituí-lo do cargo. Pois, se o fizer, estará rompendo com o PMDB. Dilma caiu na armadilha e foi empurrada a depender ainda mais de Michel Temer.

Apesar disso, ao se tornar o articulador político do governo, todos encararam como uma boa jogada da presidente da república , pois ele tem experiência, tem bom trâmite nas casas, é o Presidente do PMDB e poderia, portanto, fazer o ajuste fiscal dar seguimento e melhorar a governabilidade.

Porém o que se viu, desde que Michel Temer assumiu a articulação do governo foi o diálogo piorar sobremaneira e a governabilidade existia praticamente evaporar. Evidente que nesse período houveram tentativas de sabotagem a Temer por parte de integrantes do governo, mas foram sempre rechaçadas. Cunha era o primeiro a levantar a voz em defesa do vice-presidente, desejando que Temer o acompanhasse em uma manifestação pública.

Todavia Michel Temer é ardil como Frank Underwood. Cada vez que era sabotado pelo governo, ia ao Presidente da Câmara reclamar reservadamente. Eduardo Cunha, sanguíneo como é, logo falava aos microfones e Temer tratava de, em público, colocar panos quentes.

O vice de Dilma nesta semana mais uma vez agiu deste modo. Plantou o boato na imprensa de que pediria para sair da articulação política do governo, mas depois, em público, diante das câmeras negou veementemente.

A imprensa dá a toada da crise política responsabilizando Eduardo Cunha, porém essa narrativa não consegue explicar a péssima relação do governo com o legislativo. O governo tem crise com PDT, PTB, PSD e outros partidos que estão distantes da influência de Cunha. Convenhamos, até o próprio PT vota contra o governo.

Dilma é obrigada a suportar Temer, como é obrigada a suportar o Levy. Enquanto o vice negocia com Lula (o “amigo” que a presidente procurou se afastar) e contribui para a divisão dentro do PT, também negocia com o PSDB. Enquanto prega apoio público a manutenção da governabilidade, age para miná-la reservadamente. E com essas ações é o único que colhe frutos positivos dessa crise.
Nesta semana pregou a união em torno de “alguém” capaz de reunificar todas as forças políticas, recebeu apoio dos empresários e agora o The New York Times diz que ele surge das sombras para se tornar o Presidente da República.


O impeachment bate a porta. As peças estão se posicionando. A inexistência da governabilidade, divisão do PT, Lava Jato, prisão do Dirceu, delação do Renato Duque, Datafolha, Cunha, Manifestações no dia 16, Acordo PMDB/PSDB, a fala do Temer e do Mercadante, saída do PDT e do PTB da base, as coisas estão se precipitando.De relevante só falta o acerto com a ala pró Aécio dentro do PSDB.

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