A POBREZA DO DEBATE SOBRE A DELINQUÊNCIA JUVENIL NO BRASIL


Samuel Farias - Delinquência Juvenil
O homem nunca teve rumo. Em todo o tempo ele procurou explicações sobre a sua existência e as questões que o cercam, mas nunca soube aonde procurá-las. Inventou a roda, o avião e as chamadas de vídeo a longa distância de um aparelho celular, porém jamais conseguiu resolver os enigmas mais importantes da vida. Não há consenso, exceto em grupos que se isolam e, consequentemente, se opõem, contudo esse consenso se dá por meio de uma compreensão unilateral da questão. A mente do homem tem dificuldade para unificar o que está em oposição. Geralmente optamos por uma das alternativas e, deste modo, não vemos como - não raro - elas se completam.

É curioso como as pessoas se sentem obrigadas a escolher entre uma ou outra opção, mesmo podendo agir com moderação e equilíbrio. O processo de oposição se dá quando tentamos resolver nossas questões existenciais. A identidade do nosso eu é o meio, todavia nós temos consciência de que existe uma distinção entre o meio e nós mesmos e, por isso, quando procuramos a resposta para o que somos, ou carregamos nos ombros toda a culpa do mundo, ou descarregamos toda a culpa no mundo.

Embora a reação seja antagônica é possível uma compreensão abrangente. A identidade é uma via de mão dupla. Se a sociedade é nosso eu, ela é responsável pelo que somos. Se nosso eu é a sociedade , a responsabilidade pelo que somos é nossa. E essa relação é, de tal forma, que uma não anula a outra e, por consequência, o meio em que nascemos e crescemos pode explicar muito das nossas ações, contudo nunca pode justificá-las.

No Brasil, uma das questões que opõe grupos com visões unilaterais é a delinquência juvenil, presente no debate público sobre a redução ou manutenção da maioridade penal. Embora os dois lados pontuem tópicos relevantes, eles não dialogam entre si, apenas disputam até um posicionamento suprimir o outro, quando eles poderiam, perfeitamente, se completar. 

Um grupo defende que o adolescente é responsável pelos crimes que pratica, enquanto o outro afirma que o problema é social e não humano. O primeiro peca por desconsiderar as questões sociais e o segundo por romantizar dizendo que o homem é genuinamente bom, é a sociedade que o corrompe. Ora, não se pode negar que nem todos que nascem em más condições, se tornam criminosos e nem que nem todos que nascem em famílias ricas, tem boa formação e sem histórico de maus tratos são necessariamente honestos, do mesmo modo é inegável tanto que fatores sociais aumentam a possibilidade de um adolescente escolher viver no crime, quanto que ele tem consciência moral do que está fazendo e poder de se negar a andar a margem da lei.

Logo, é inútil discutir se o problema é social ou é humano. Essa discussão só serve para tirar a responsabilidade do indivíduo e fechar os olhos para o problema social, mantendo a delinquência juvenil como algo profundamente desestabilizador na sociedade e as condições sociais em péssimo estado.

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