É PRECISO SUPERAR A CULPABILIZAÇÃO PARA AJUDAR O OUTRO



Não existe uma fórmula para viver bem e feliz, uma hora ou outra, inevitavelmente passamos por problemas e nesses momentos é comum buscarmos apoio num familiar, no cônjuge ou em amigos e a resposta que geralmente recebemos, mesmo daqueles que gostam verdadeiramente de nós é uma reflexão de como foram atitudes nossas que desencadearam na situação que agora padecemos. Esse retorno do outro frente ao nosso pedido, porém, não traz nenhum efeito positivo para quem esta sofrendo, pelo contrário.


Enfrentar uma dificuldade, não raro nos deixa vulneráveis, e, de dentro da tormenta, enfraquecidos pela dor, a visão de toda a situação, inclusive possíveis ferramentas de superação  do desafio ficam comprometidas e então buscamos que o outro apresente soluções realistas e que sinta empatia e solidariedade, compreendendo toda a dor que estamos narrando.

Nem sempre há soluções. Há dramas que precisam ser vividos. Como abreviar o sofrimento de um filho cuja a mãe esta internada? Como abreviar a dor de uma mãe que perdeu o filho num acidente de trânsito? E a de um pai que viu seu filho ser preso por ter cometido crime? Muitas dessas dores o próprio tempo cura, outras simplesmente não tem remédio. Logo nem sempre que buscarmos resposta de outra pessoa para nossos problemas encontraremos os instrumentos necessários para resolvê-los e sabemos disso.

O que é impreterível é que o outro sinta empatia e nos compreenda. Ficamos tão vulneráveis, sem forças, com os sentimentos como numa tormenta que esperamos encontrar alguém que diga algo ou se posicione de modo que nos acalme. A dor é muito pesada e a solidão é um instrumento para potencializá-la, por isso, ao procurarmos uma pessoa para conversar esperamos dividir o peso da dor e ter uma companhia melhor que a nossa para passar pela fase, porque nós, bem provavelmente, estamos nos culpando e é por essa razão que é fundamental recebermos uma resposta compreensiva, de alguém que esteja disposto a carregar aquele fardo, solidariamente, conosco e, desta forma, quando procuramos ajuda e recebemos uma "análise" de como toda aquela situação é "culpa" nossa, a pessoa acaba, por fim, fazendo parte do problema e maximizando o nosso sofrimento.

Não há nenhum efeito positivo nessa atitude. Haver alguém nos dizendo "se você não tivesse feito aquilo, não estaria sofrendo isto" não corrige o erro que desencadeou o problema, tampouco soluciona ou da instrumentos pra resolver adversidade, antes aumenta a nossa dor e ainda faz com que desenvolvamos uma certa barreira em pedir ajuda novamente, tanto a ele quanto a outra pessoa, por receio de termos mais alguém com o dedo em riste dizendo o quanto somos culpados.

Essa atitude quase sempre vem de alguém que gosta de nós. Então por que razão as pessoas que querem o nosso bem, quando vamos a elas buscar uma palavra amiga, tomam uma atitude que nos faz tão mal? 

Não é proposital, é uma atitude intuitiva que algumas pessoas tomam. Ao verem o problema de alguém, elas sentem que aquilo também pode acontecer com elas. Como o medo consome energia o cérebro delas cria uma espécie de consolação que o que esta acontecendo conosco é culpa nossa, e, como isso não esta acontecendo com elas, então não fizeram as mesmas burradas que nós. Como não cometeram os mesmos erros que nós, então podem ficar tranquilas que jamais passarão por momentos como esses.

Essa resposta que geralmente as mães dão quando vamos contar para elas do que estamos sofrendo cria nelas e nas pessoas como um todo a falsa percepção que elas tem total controle sobre as suas vidas e que, como não querem o seu próprio mal, jamais passarão por isso.

A questão é que isso é só uma ilusão, além de, imediatamente, gerar uma atitude que faz mal a quem elas amam, no longo prazo faz mal a elas mesmas, que, quando passarem por situação semelhante terão que enfrentar a realidade e perceber que somos humanos, que boas intenções nem sempre geram atitudes boas, que somos falhos e inevitavelmente vamos errar e que a nossa vida não esta sob o nosso controle. 

Conscientizar-se disso, por fim, é o primeiro passo, o qual não se pode preterir, para que resistam a esse impulso quando alguém que amam vem até eles pedindo apoio. Só a partir daí que, ao invés de dizerem "eu avisei" ou " se você tivesse feito assim nada disso estaria acontecendo" poderão nos ouvir e compreender que somos todos nós, seja quem agora apoia, seja quem é apoiado, miseravelmente humanos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário