A VÍTIMA E AS VÍTIMAS



Eu me posiciono a favor das manifestações contra o governo, principalmente esse "nosso" governo, mas ainda me sou contrário as revindicações (+ saúde, +educação, +Estado, etc.) e, SOBRETUDO, aos métodos violentos, tanto aqueles que intentam agredir propriedade privada e jornalistas, quanto aqueles que agridem o direito das pessoas de ir e vir. 

Qualquer manifestação precisa respeitar princípios, para só então buscar fins. E pedir ao Estado que invista mais recursos dentro do próprio Estado, para que ele, depois de todo um histórico de ineficiência, agora se torne eficiente é mais que ingenuidade, é burrice. Mas manifestar-se é um direito, ainda que de forma burra e talvez seja o único que ainda nos sobre diante de uma instituição que impõe sua soberania, dentro de um território que é nosso, mas sob a sua tutela, sobre nós.

Reagir aos governos que exploram 2/5 de toda a riqueza que produzimos, sob o compromisso de nos dar acesso a saúde, a educação, a segurança de qualidade e a poder de compra e gastam com estádios é inegavelmente justificável, mas essa reação tem que atender a princípios para se justificar, senão se torna crime e, infelizmente as manifestações, desde o ano passado, só enxergam fins.

Eu sempre estive preocupado com essa ideia de "salvadores da pátria" que toma conta dos protestos no Brasil. O Batman - um sujeito que se fantasia como o personagem da DC COMICS para participar dos protestos - é a personificação desse "herói" popular. Fala em nome da população como se houvesse recebido uma procuração das pessoas para representá-las ou como se nós fossemos 'amorais', 'alienados' - como eles gostam de chamar quem discorda deles, 'incapazes de saber' o que é melhor para nós e completamente 'dependentes' que ele, que não seria alienado, fale por nós, nos restando apenas aderir ao pensamento dele ou manter-nos 'manipulados'. E, baseado nessa crença, esses arruaceiros vão as ruas, impedem o ir e vir, em nome da sua (pseudo) causa suprema, para cometer crimes (perturbação da ordem, desacato a autoridade, depredação de patrimônio público, tentativa de homicídio, homicídio, formação de quadrilha, etc.) e protestar.

Todavia ontem o Estado conseguiu uma vítima. Não que essa tenha sido a única vítima nesse processo, outras pessoas já morreram desde que se iniciaram os protestos, mas ele é a única vítima que serve aos interesses do Estado, ele é A vítima. 

O cinegrafista Santiago que faleceu ontem é vítima sim, e a sua morte nos causa profundo pesar. Um profissional, trabalhando, pai de família, mas sobretudo um ser humano que teve a sua vida furtada por marginais, criminosos que já faziam antes vítimas os trabalhadores que queriam ir para suas casas, mas ficavam presos no trânsito, os empresários que fechavam as portas mais cedo ou que tinham suas propriedades depredadas, o indivíduo que queria andar livremente nas ruas, seja a pé ou no seu carro. 

O problema é que o Estado ignorou todas as outras mortes, todas as outras vítimas, porque eram suas e agora quer fazer de Santiago um mártir para os seus próprios interesses. Nós temos inúmeras violações de direitos humanos todos os dias por meio do Estado, ele avança como um monstro sedento sobre a nossa liberdade individual que é cada vez menor, progride com passos largos sobre nossas escolhas e sobre nossos direitos sob o mesmo discurso totalitarista dos marginais que mataram o cinegrafista. Quem protegeu Amarildo do Estado? Quem protegeu o cantor Leonardo do Estado? Quem protege os proprietários de terra do Estado? Quem nos protege dos bandidos e da polícia?

Pois bem, com o corpo de Santiago, vem à tona uma ação sinérgica para aumentar ainda mais o poder do Estado, ele que será o nosso Batman. Com o corpo do cinegrafista e a forte campanha da imprensa, lembrando a dor da família, a partida precoce, tudo o que ele poderia viver e não vai viver a sociedade vai se sensibilizar, virá o medo e vai se voltar contra os manifestantes, sobretudo os que utilizam a tática Black Bloc. "E agora, quem poderá nos defender?", o Estado, nosso Chapolin Colorado, já aparece como herói para acalmar a população temerosa do perigo que esses marginais representam. 

A nossa presidente disse ontem, no twitter que pediu a Polícia Federal para ajudar nas investigações, os jornalistas tem usado o termo "terrorismo" e o Senado pode votar com urgência o projeto que tipifica crime de terrorismo. Pronto, esta feito, mais poder para o Estado e menos liberdades para os indivíduos.

Longe de mim defender baderneiros e black blocs, mas por que será que esse mesmo raciocínio não é aplicado ao Estado? As pessoas estão corretas em se posicionarem contra esses "manifestantes" que fecham ruas, usam máscaras e cometem crimes, mas por que não se posicionar contra o Estado que tem mais poder e faz coisas muito piores? Será que a família do Amarildo também não sofreu e não chorou a perda de um membro? Será que não foi furtado dele vários momentos de alegria? 





 O Estado é Black Bloc, ignoram completamente nossa propriedade, nossos direitos e nossa liberdade e nós, cidadãos de bem, que trabalhamos e estudamos, somos vítimas indefesas contra os seus rojões. E logo, sequer reclamar será possível.







Samuel Farias é filósofo, brasileiro, vascaíno, apaixonado por esportes, inclusive radicais, amante de boa comida, de música e de cinema, escritor no tempo livre, questionador das banalidades e militante em prol da ética, da liberdade e de uma revolução na educação.

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