A metástase do preconceito



Essa charge, que não deve ser entendida apenas como uma reflexão sobre mulheres e sim sobre pessoas, retrata muito bem os padrões de palavras que adotamos para rotular os outros, sem questionar o contexto onde elas estão inseridas.

Existem palavras que, quando ditas por outra pessoa, despertam em nós um alerta que nos faz presumir tudo o que o outro disse, vai dizer e pensa. Uma ou duas palavras, geralmente já bastam.

No campo intelectual, recentemente o filósofo Paulo Ghiraldelli foi chamado de pedófilo, tudo porque escreveu um texto sobre sexo entre adultos e crianças e impedido de prosseguir com um evento dentro da sua própria Universidade porque um grupo de alunos o chamou de machista e homofóbico. Luiz Felipe Pondé também foi expulso de um evento porque supostamente seria racista por se opor as políticas de cotas. Completou um ano a poucos dias o texto sobre tortura do psicanalista Contardo Calligaris na Folha que precedeu uma série de acusações de que ele estava incitando a violação de direitos humanos. 


No dia a dia esses padrões de senso comum também se estabelecem assim. Para o militante ser contra a política de cotas é sempre sinônimo de racismo; ser contra a PLC 122 ou discordar da interpretação do STF sobre o casamento ou até chamar alguém de "viado" é sempre sinônimo de homofobia e ser cavalheiro ou elogiar uma mulher é sempre atestado de machismo. 

Nem é preciso pensar. Basta alguém colocar numa mesma frase "negro" e "macaco"; "mulher" e "vadia"; "família" e "natural"; "criança", "adulto" e "sexo" e os rótulos correspondentes se seguirão. Bastam palavras e pequenas associações de palavras, ainda que o sentido seja outro, para o radar detectar a presença de algum preconceito e este é um modo de empacar a reflexão sobre o tema e encerrar de modo inacabado a compreensão sobre o assunto.

É óbvio que essa interpretação não veio do nada, é uma reação natural. Assim como na tirinha a mulher provavelmente já foi adjetivada como "vaca" por um ou vários homens e trouxe todo esse histórico sem reflexão para este caso, muitos homossexuais já viram pessoas se oporem ao casamento homoafetivo, a PLC 122 e já foram chamados de "viados"por homofobia; negros já foram vítimas de racismo por pessoas que eram contra cotas e mulheres se sentiram desvalorizadas com o 'cavalheirismo' de homens e com cantadas desrespeitosas.

O "natural", no entanto, não é sinônimo de bom. O preconceito e a, consequente, discriminação, por exemplo, são, também, comportamentos defensivos naturais biológicos, porém precisam ser superados pela capacidade reflexiva.

O combate dialogal contra o racismo, o machismo e a homofobia são fundamentais. É preciso identificar o discurso discriminatório e desmascará-lo, no entanto é impreterível, por fim, cuidar para que a busca pelo esclarecimento contra os discursos de ódio não se transformem em uma metástase.

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