A DIFERENÇA ENTRE AS MANIFESTAÇÕES NA VENEZUELA E BRASIL




QUAL A DIFERENÇA ENTRE AS MANIFESTAÇÕES NA VENEZUELA E NO BRASIL?

Venezuelanos e brasileiros tem em comum apenas o fato de estarem insatisfeitos e de serem fortemente reprimidos pelo Estado, contudo o objeto da insatisfação é completamente diferente e isso é fundamental para responder essa questão.


Manifestar-se é um direito caro, tanto no Brasil, quanto na Venezuela. Por aqui, e também por lá, expressar opinião pode ser motivo para enjaular pessoas e quando indivíduos expõem insatisfações contra um sistema de poder que privilegia um grupo que detém o monopólio da força os riscos são muito maiores.


O Estado só tem legitimidade de existir se e para os indivíduos que o desejam. Diferentemente do ser humano, o Estado não é uma substância, ele é apenas o produto da ação das pessoas. O ser humano possui valor intrínseco, enquanto que o Estado só tem valor quando alguém lhe confere valor e é por essa razão que a destruição de humanos é antiética, já a do Estado não necessariamente.

Os brasileiros tem ido as ruas para aperfeiçoar o Estado. A pauta das manifestações aqui é uma tentativa das pessoas contribuírem para que o Estado brasileiro seja melhor. O que os nossos jovens que vão as ruas pedem é para que o Estado garanta a segurança, ofereça um ensino público de qualidade, que disponibilize um serviço de saúde pública adequado e que faça com que o o transporte público seja mais eficiente e barato.

As manifestações brasileiras legitimam o nosso Estado. Ao lutar pró-Estado, para que ele seja mantido e contribuírem para que ele se aperfeiçoe os manifestantes endossam sua existência e apenas exercem o seu papel, dentro do contexto estatal de cidadania. Deste modo, até a ação repressora da polícia é justificável, já que ao impedir o ir e vir, tentar cometer e de fato cometer homicídio, desacatar autoridade, destruir e invadir propriedade privada e pública os manifestantes desrespeitam as leis estatais que eles mesmos legitimam. 

Na Venezuela, contudo, é diferente. Os jovens venezuelanos não querem que o Estado seja aperfeiçoado, embora, assim como os brasileiros, estejam insatisfeitas com a ineficiência estatal, desejam que seja destruído e emerja um novo. A juventude naquele país não reconhece nenhum dos poderes estatais, nem a sua soberania sobre ela e sobre o seu território. O sentimento dos venezuelanos é de que vivem em uma ditadura socialista contra a sua vontade e por esta razão eles vão as ruas lutar pela sua liberdade tomar. O Estado venezuelano não tem legitimidade sobre esses indivíduos.

Ao legitimar o Estado os manifestantes brasileiros entregam, voluntariamente, o monopólio da força e se submetem as suas regras, ficando sujeitos ao ônus dessa escolha. Ao deslegitimar o Estado os venezuelanos retomam a sua liberdade e retiram do Estado o direito de exercer soberania sobre eles e sobre sua propriedade.

O fator maioria é ainda menos relevante na Venezuela. O desejo da maioria só tem valor de decisão sobre pessoas num Estado democrático legítimo que determine esse método, porém como na Venezuela o Estado perdeu a sua legitimidade, o desejo da maioria não tem valor algum sobre aqueles que querem se libertar. Existem crenças equivocadas que a democracia é um princípio irrevogável, todavia a democracia não é um princípio, ela é apenas um método, considerado por muitos, como o melhor para manutenção do Estado. Princípio é a dignidade humana, que só pode ser exercida havendo liberdade e as maiores violações contra os direitos humanos foram endossadas por uma maioria e nem por isso torna essas atrocidades menos imorais, vide o nazismo, o apartheid, o regime socialista cubano e a escravidão, portanto, ainda que a maioria da população venezuelana fosse (não sabemos se é ou não) a favor da manutenção do Estado venezuelano, isto não lhe dá legitimidade sobre aqueles que não o desejam, pois superior a vontade da maioria para a minoria, é a liberdade que cada indivíduo tem sobre si e sua propriedade, isto é, a dignidade humana.

O que temos visto na Venezuela é o Estado oprimindo sua população, que vai as ruas para lutar por sua liberdade e é recebida com tiros letais e repressão ilegítima. Jovens que, embora de outra nacionalidade, com ideais diferentes dos nossos, tem tido sua vida furtada e o seu sangue derramado para lutar por uma causa que também é nossa, que vai muito além da Venezuela, uma causa humana, a liberdade. Por fim peço que nos lembremos da declaração do pastor Martin Niemöller que diante da violação dos direitos humanos na Alemanha nazista se calou até que chegou a hora que a sua humanidade foi violada e já não havia mais ninguém para lutar por ele e façamos diferente, não nos calaremos diante de um monstro, o Estado, que quer, por mero amor ao poder, manter vidas humanas vítimas da sua opressão.





Samuel Farias é filósofo, brasileiro, vascaíno, apaixonado por esportes, inclusive radicais, amante de boa comida, de música e de cinema, escritor no tempo livre, questionador das banalidades e militante em prol da ética, da liberdade e de uma revolução na educação.



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