A felicidade não existe ou ela é um mal social


Samuel Farias -
A felicidade não existe ou ela é um mal social
Havia um antigo provérbio grego que dizia que "a melhor das coisa é não nascer", deixando clara a ideia de que é impossível impedir o sofrimento, todavia para o filósofo Epicuro felicidade é não sentir dor. Ora se felicidade é não sentir dor, e ela é inevitável, então será possível o homem ser feliz? E se não, a felicidade de fato existe ou é apenas uma ilusão?

Segundo Aristóteles "toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda escolha visam um bem qualquer" e que todo bem que desejamos tem como fim o sumo bem que é a felicidade. Lao-Tsé já dizia que a felicidade nasce da infelicidade, pois é o sofrimento físico ou psicológico, real ou imaginário que nos move na busca do alívio. É a dor que nos dá razão para conseguirmos alegrias e as coisas que damos valor.

Atualmente o Facebook é o local onde as pessoas cultuam a felicidade como a razão de suas vidas, porém isso não é recente, a nossa espécie sempre a idealizou. Para o homem selvagem a felicidade era um lugar seguro para dormir, onde pudesse se abrigar do frio e da chuva, não precisar arriscar sua vida em uma caça para se alimentar e alguém com quem pudesse copular.


Com a propriedade privada ele ainda não havia encontrado a felicidade. O trabalho pesado na agricultura e na construção não traziam contentamento. O álcool era um meio de escapar da dor das suas vidas, enquanto outros criaram a religião e deuses para dar as respostas às suas angústias. A criação de Deus tampouco foi capaz de livrar o homem da dor, com a fé ele pode fugir da realidade e buscar na transcendência encontrar a satisfação. A religião e a civilização trouxeram benefícios para o homem, que passou a buscar a felicidade no casamento e na posição social. As mulheres sonhavam em arrumar um bom "partido" e depois tinham que suportá-lo pelos status social, enquanto os homens só esqueciam suas feridas nas casas de prostituição.

Com a revolução francesa e as ideias comunistas, Deus foi sendo deixado de lado, e veio a crença que a felicidade poderia ser assegurada pelo Estado, que promoveria a justiça, a saúde, a igualdade e o bem-estar social, entregamos a responsabilidade da nossa felicidade aos políticos, que acumularam poder e não foram capazes de cumprir com aquilo que almejávamos.

Atualmente o trabalho já não é necessariamente braçal, a tecnologia nos poupou do esforço físico, temos abrigo seguro contra o frio e a chuva, água potável, comida no supermercado, chuveiro quente, travesseiro de pena de ganso e podemos ter o luxo de passar o fim de semana descansando ou em atividades de lazer sozinhos, com amigos ou com a família e a mulher pode escolher quando, com quem e se quer casar, quando e quantos filhos quer ter.

Todas essas conquistas, no entanto, também não nos fez alcançar a felicidade, pelo contrário vivemos extremamente angustiados com o futuro, com a carreira profissional, insatisfeitos com o carro, com a casa, com o bairro que moramos, com a televisão que é inferior a do vizinho, estamos descontentes com a nossa própria imagem. Corremos para a academia ou nos valemos de dietas severas para emagrecer. Ingerimos anabolizantes para aumentar a massa muscular e recorremos a cirurgias para realçar alguma parte do corpo ou corrigir algum "defeito" e submetemos nossos cabelos a produtos químicos agressivos, inclusive formal, porque estamos infelizes conosco e com aquilo que vemos refletido no espelho, não somos quem gostaríamos de ser e por isso a felicidade, para nós, esta na idealização do sucesso midiático, queremos nos tornar celebridades, estamos embriagados pela fama.

É por essa razão que adolescentes filmam sexo e publicam nas redes sociais, mulheres se relacionam com personalidades da mídia e divulgam na imprensa, mendigamos seguidores na internet e abrimos mão da nossa liberdade, do nosso convívio em família, para sermos avaliados como roupa em vitrine de loja no Big Brother Brasil. Nos alegra mais a expectativa da folga no sábado enquanto trabalhamos na sexta-feira, do que a própria folga no domingo.

A peculiaridade da nossa natureza é exatamente o descontentamento. Uma goiaba não pula do galho antes de amadurecer a fim de evitar se espatifar no chão, bem como a formiga não desiste do trabalho e vai vadiar como a cigarra e nem um leão passa a fazer uma dieta a base de legumes e verduras por se ressentir de matar vidas para comer. É fácil suprir as necessidades de uma árvore, ela só precisa de sol, espaço para crescer e água, contudo para nós sobreviver não nos basta. Se há sol queremos chuva, mas se chove sentimos falta do sol. Queríamos ser adultos quando éramos crianças e agora se pudéssemos nunca teríamos crescido. Trabalhar é cansativo, mas ninguém suporta ficar em casa sem fazer nada. Diferentemente dos animas e das plantas não existe um método para nos satisfazer, não existe fórmula para a felicidade.

Nós nunca estaremos contentes. Mesmo quando amamos e estamos vivendo intensamente um relacionamento ao lado de alguém que desejamos não alcançamos a plenitude da satisfação, como disse Carlos Drummond de Andrade, "[o amor] é inquietação, agitação, vontade de absorver o objeto amado, temor de perdê-lo, sentimento de não merecê-lo, ânsia de dominá-lo, masoquismo de ser dominado por ele, dor de não o haver conhecido antes, dor de não ocupar o seu pensamento 24 horas por dia, e mas dias a pedir ao dia para ocupá-lo, brasa de imaginá-lo menos preso a mim do que eu a ele, desespero de o não guardar no bolso, junto ao coração, ou fisicamente dentro deste, como sangue a circular eternamente e eternamente o mesmo". Sequer a riqueza e os aplausos trazem a felicidade, porque o sofrimento é inevitável e assim sendo a felicidade não existe, não passando de uma ilusão de óptica.

Se alguém, no entanto, de tanto buscá-la, por ventura a alcançar, não fará mais nada, pois pra que fazer qualquer ação se já possui o sumo bem? E a ausência de ação nos estagnaria enquanto espécie, pois não produziríamos nenhum bem, não haveria medo e nem preocupações, em um mundo que há perigos reais, logo se a felicidade existir ela é um mal social.


Samuel Farias é filósofo, brasileiro, vascaíno, apaixonado por esportes, inclusive radicais, amante de boa comida, de música e de cinema, escritor no tempo livre, questionador das banalidades e militante em prol da ética, da liberdade e de uma revolução na educação.







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