Dirceu e Genoíno - A Novela Petista


Samuel Farias - Novela petista
As novelas do horário das nove horas na Rede Globo fazem parte da nossa cultura de tal modo que muitas vezes fantasiamos o personagem da ficção na realidade. 

Essa idealização já era comum através do cinema, como por exemplo a ideia de um príncipe encantado como nos filmes e desenhos da Disney. Na mesma direção as novelas criaram protagonistas com determinados perfis e nós, não raramente, idealizamos o mocinho e a mocinha nas nossas relações, contudo, desta vez, essa paixão avança sobre um novo cenário: a política.


Os Josés Dirceu e Genoíno são os heróis petistas, com perfis que, diferentes, se casam, como num enredo típico da dramaturgia brasileira formando o arquétipo do casal de protagonistas de novela das nove. No drama há uma sensibilização com o sofrimento de José Genoíno e um encantamento com a força do ex-chefe da Casa Civil. A vilã é a Justiça brasileira, a oposição, a imprensa - enfim, as instituições democráticas - que, segundo os correligionários, perseguiu os mocinhos.


Genoíno se abateu com a acusação e com a reação da opinião pública. Se ressentiu de ter o seu prestígio político diluído por algo que ele fez por ideologia, não por dinheiro e isso é importante destacar. Genoíno não fez nada para enriquecer, ele agiu porque acredita piamente que o partido representa o povo e que, portanto, mesmo que solapando as instituições democráticas, o PT tem que manter e conquistar todo o poder, então ele se considera um herói nacional, nunca um corrupto e ladrão, por isso seu desapontamento com a imprensa que não teria reconhecido a "nobreza" do seu gesto e o retratou de forma ruim, a decepção com os brasileiros por acreditar na mídia (golpista) e com o malvado juiz,  a raiva com oposição invejosa e, por fim o ódio a Justiça que teria analisado os fatos friamente, com muito rigor e o condenado à prisão como se fosse um criminoso comum. 


Nas eleições para prefeitos e vereadores Genoíno já dava sinais de que se abatera. Primeiro, ao ser hostilizado desistiu de votar, depois voltou, nitidamente fragilizado, e declarou que se sentia torturado, tal qual na ditadura, mas agora uma tortura na alma. Soma-se a isso a doença que o acometeu (dado objetivo), o risco de morte iminente (que nunca se mostrou real), o apoio que recebeu de personalidades que o declararam inocente em carta deram elementos suficientes para transformarem-no na "mocinha" dessa história. No relato petista Genoíno cativa a nossa solidariedade e dó, ele é a vítima. 


Em contrapartida José Dirceu não é um homem comum nessa narrativa, ele seria um semi-deus grego, capaz de enfrentar todo tipo de infortúnio com coragem sobre humana. No dia que foi decretada a sua prisão estava na praia, como se nada estivesse acontecendo, enquanto qualquer mortal estaria amargurado e apreensivo torcendo ou rezando por um desfecho diferente, Dirceu parecia ter ido às águas recarregar energia para a sua Odisseia, como se estivesse certo da condenação e de que precisava estar forte para uma guerra ou guerrilha. Acusou a mídia, enfrentou Roberto Jefferson, encarou os manifestantes, atacou o Ministro do STF Luiz Fux e criou um blog. O ex-chefe da Casa Civil sabe que não é inocente, mas não nutre nenhuma espécie de desapontamento, para ele aqueles que o condenaram, que divulgam exaustivamente sua imagem e que o acusam são iguais a ele, não são adversários, nunca foram, são inimigos e, de inimigo espera-se qualquer coisa. Dirceu tem as costas largas, vai apanhar, mas continuará socando. Quer escrever, acusar, falar abertamente, não vai se calar diante daqueles que se opuseram a ele.


A paixão pelos personagens suprime a razão e a confusão do que é real, com o que é ilusão vem enfraquecendo a institucionalidade da nossa democracia. Os ataques platônicos a imprensa, tratada como "golpista", e as injúrias contra o STF e contra Joaquim Barbosa, extrapolam o campo do imaginário e nisso reside grande mal, porque representa uma continuação do que se iniciou com o mensalão: golpe de Estado.


A diferença básica entre quem assiste a novela e a um petista é que sabemos que as novelas não são verdadeiras, os apaixonados pelos Josés, no entanto, acreditam na história que eles mesmo criaram e, nessa ilusão, estão desestabilizando a democracia em prol de um ideário mesquinho, que tenta justificar os meios pelos fins.



Samuel Farias é filósofo, brasileiro, vascaíno, apaixonado por esportes, inclusive radicais, amante de boa comida, de música e de cinema, escritor, questionador das banalidades e militante em prol da ética, da liberdade e de uma revolução na educação.

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