A censura e a oposição ao belo


Samuel Farias - Izabel Goulart se despede do
Rio de Janeiro e mostra corpo perfeito
Eu não tenho o hábito de buscar notícias sobre personalidades da mídia, mas muitas pessoas tem esse hábito. O consumo de notícias de fofoca e sobre a vida alheia é alto e se dá na medida que há enorme demanda. As pessoas desejam saber, o empresário quer informar e, não raro, a própria personalidade quer ser retratada. Eu considero fútil esse tipo de informação, mas aquilo que eu dou valor e aquilo que eu não atribuo valor não devem ser imputados aos demais. Cada um deve dar valor aquilo que lhe der significância. 




Nessa semana uma revista que divulga esse tipo de entretenimento causou polêmica. A revista Marie Claire fez uma matéria dizendo que o corpo da top brasileira Izabel Goulart era perfeito e isso causou enorme revolta nos internautas que leram a notícia no site, obrigando a revista a revisar o título escrito inicialmente pela jornalista, deixando no título final o elogio por conta dos leitores "fãs elogiam: 'corpo perfeito'".

Embora eu não seja afeito a esse tipo de revista, mesmo eu considerando as matérias desse site fúteis, inúteis e sem graça, o ataque que a revista sofreu por publicar opinião da jornalista sem censura me deixou estupefato com o tamanho da intolerância no Brasil.

Qual foi o erro da revista? O erro foi dizer que o corpo dela é perfeito? Mas o corpo dela é imperfeito? Ou o erro foi dar voz a uma jornalista que tem uma opinião diferente da maioria?

Convenhamos que a manchete no site da revista apenas valoriza o corpo da Izabel Goulart, que também é ser humano, também é mulher (Parece imbecil enfatizar isso, mas nesse caso é necessário). A matéria não foi ofensiva, foi apenas um elogio ao corpo da top e não um ataque aos outros biotipos. É difícil compreender o que leva pessoas a associarem o elogio a uma pessoa com a crítica a todas as outras. Quer dizer que quando um namorado elogia a sua namorada ele esta ofendendo a todas as mulheres? Ou quando eu digo que minha mãe é perfeita estou ofendendo todas as mães? Ou ainda, se um jornal disser que um restaurante é perfeito, todos os outros restaurantes devem processá-lo por o jornal tê-los ofendido? Isso não faz o menor sentido. Algumas pessoas afirmam que a revista mereça crítica por só elogiar esse tipo de corpo, mas ainda assim não muda nada. Qual o limite de elogio a uma pessoa é permitido para não ofender a todas as outras? Se um rapaz disser mais de 20 vezes que a sua mãe é perfeita, ou que o corpo da sua companheira é perfeito, já pode ser considerado ofensivo para todas as outras?

Eu concordo, no entanto, que a opinião da jornalista na revista contribui para a criação de um padrão de beleza, mas o qual opinião não contribui para formação de padrões sociais? Qualquer pessoa que expresse um pensamento tende a influenciar os outros. Quando escrevi esse texto pretendia que as pessoas concordassem com a minha visão de mundo, mas não de forma dogmática, isto é, pretendo levar as pessoas ao esclarecimento daquilo que eu julgo ser o correto, ou alguém escreve algum texto pensando que as pessoas não devem concordar consigo? 

É certo que algumas mídias tem poder de projeção maior do pensamento que outras, mas não é possível ser diferente. Se eu escrevo um texto no Orkut e o mesmo no Facebook certamente a rede social do Google projetará bem menos o meu pensamento, assim como uma notícia na Rede Globo tem maior poder de alcance que uma notícia dada por uma pessoa pouco popular, contudo isso acontece de forma livre e espontânea. As pessoas assistem a Globo porque tem interesse, leem a Veja ou a Carta Capital porque se identificam de alguma forma, podem preferir a Marie Claire, em detrimento de um artigo científico livremente. Se o poder de projeção de um pensamento é adquirido pelas escolhas das pessoas, de forma livre, então não há nada de imoral em ter uma opinião com maior poder de projeção, até porque, com a internet, qualquer pensamento interessante ganha audiência. 

Nós não somos agentes passivos, incapazes de pensar. Temos inúmeros instrumentos cognitivos para discordar da imprensa. Nós não aceitamos toda opinião que aparece na mídia, em algumas concordamos e em outras discordamos, mesmo assim aqueles que discordam dela retratam os demais como não pensantes, como massa de manobra e atribuem um poder que a imprensa não tem. Portanto afirmar que a revista, ao permitir a jornalista dizer que o corpo da brasileira é perfeito, estaria, arbitrariamente, invadindo nossas mentes e nos fazendo concordar com ela, não beira, é ridículo. Qualquer pessoa, até um analfabeto, que é esta no padrão intelectual (olha o padrão aí) mais baixo na nossa sociedade, é capaz de dizer não a uma opinião.

Usar a anorexia como justificativa é igualmente absurdo. O transtorno alimentar é causado por fatores genéticos e o tratamento adequado não é atacar opinião de jornalistas em sites de revistas e sim encaminhar para o psiquiatra. É certo que a sociedade influencia na construção de um padrão de beleza, mas isso é comum e inevitável. Nós, no meio, construímos todos os nossos padrões seja de beleza, seja moral, sejam linguísticos, é burrice culpar a imprensa por essa construção, pois mesmo sem a imprensa teríamos padrões e esses padrões são mutáveis. Além disso culpar a preferência da jornalista da Marie Claire por um biotipo como o da topmodel brasileira ou uma suposta "ditadura" da magreza pelos casos de anorexia não é sensato, tendo em vista que essa doença não é um mal moderno, ela é muito antiga e há relatos de privação voluntária de alimentos em períodos cujo padrão de beleza era de mulheres com perfil completamente diferente do atual, inclusive santas católicas e mulheres classificadas como bruxas na Idade Média¹²³4

Não foi a jornalista e nem a revista que foi ofensiva, quem ofendeu foram os defensores do corpo "normal". Primeiro criaram um espantalho (vide falácia do espantalho) colocando as gordas na história, depois colocaram outro espantalho dizendo que a revista promovia a anorexia - desde quando magreza é sinônimo de transtorno alimentar? - E assim constituiu-se exatamente dos "politicamente corretos" a atitude contra os direitos humanos, em dois níveis, o da discriminação e o da censura.

Embora afirmem por aí que existe uma ditadura da magreza o que se vê, no cotidiano, é uma pressão sobre as mulheres magras para que engordem. Basta ver a pressão que as modelos sofrem sempre acusadas de serem doentes, de terem algum transtorno alimentar. Outras personalidades artísticas também sofrem ataque pela sua magreza, Luciana Gimenez¹², Catherine Zeta-Jones³, Nicole Richie4Carol Magalhães5 e homens como Boy George6 e Macaulay Culkin7 foram alvejados severamente por sua magreza, acrescente o fato de pessoas, no dia a dia, serem até ridicularizadas, como a personalidade do YouTube +Julia Jolie  8
Samuel Farias - Izabel Goulart sofre preconceito


Samuel Faras - Top Izabel Goulart sofre preconceito
no Brasil
Além de serem rotineiras, as críticas ao biotipo magro, que fizeram a revista censurar o texto da jornalista, se mostraram, essas sim, ofensivas. Em referência a matéria no site da Marie Claire, muitos blogs disseram que o corpo da modelo é cadavérico, nos comentários no site diziam que era "puro osso", "doentio", "doente terminal", "com câncer" e "anorético", basta acessar o site, os comentários vão de mal a cada vez pior. No meu entendimento isso se chama ignorância, burrice e preconceito. 

Samuel Farias - Marie Claire censura jornalista
por elogiar top magra

Há, no senso comum, cristalizado o pensamento que a pessoa magra tem algum problema de saúde ou social e isso sim se reproduz no cotidiano. Baseado no que as pessoas concluíram que Izabel Goulart tem anorexia? Havia algum prontuário médico, um laudo atestando que ela tem algum tipo de transtorno alimentar? Tudo isso aconteceu nas redes sociais, as críticas vieram de pessoas ligadas a movimentos sociais também, fico imaginando como uma menina ou um menino com biotipo magro, mas saudável, deve sofrer constantemente, sendo apelidado e chamado de anorético, aidético e drogado.

Esse papo furado, muito usado por feministas e outros movimentos sociais de esquerda, de que o padrão de beleza no Brasil é o da mulher magérrima só serve para ampliar esse comportamento odioso contra as magras. Contudo a preferência da maioria esmagadora é por um corpo mais curvilíneo, sendo o biotipo das topmodels desejado apenas por 8% das brasileiras segundo pesquisa do instituto Data Popular. 

O que me assusta nessa história toda não é o preconceito contra as pessoas magras, porque, embora eu o considere totalmente imoral, sei que sempre haverá ignorância, e sim o avanço contra a liberdade de expressão e contra a imprensa livre. A verdadeira intenção dessas pessoas é controlar o jornalismo, é intimidar a imprensa, para que nenhum profissional tenha autonomia para dizer o que, de fato, pensa. A intimidação a mídia é tão grande que elogiar alguém fora do padrão de beleza das brasileiras é passível de censura e pedido de desculpas por parte da Marie Claire.

Por fim fica evidente que o erro da revista não foi publicar a manchete da jornalista, afinal a função da profissional é passar a notícia e emitir opinião mesmo, agradando ou não. O erro da Marie Claire foi se curvar ao preconceito daqueles que não aceitam nada fora do padrão de beleza nacional, foi se subjugar ao ódio daqueles que não aceitam opinião divergente e imprensa livre, e, sobretudo,  a revista errou ao submeter-se a censura. 

A Izabel Goulart tem sim um corpo perfeito, exceto para os preconceituosos. 

Samuel Farias - Não há nada de imperfeito em uma mulher magra





Samuel Farias é filósofo, brasileiro, vascaíno, apaixonado por esportes, inclusive radicais, amante de boa comida, de música e de cinema, escritor no tempo livre, questionador das banalidades e militante em prol da ética, da liberdade e de uma revolução na educação.






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