Dilma e o dilema do líder


Me recordo que na minha infância, um período de grande pobreza, nós só não passávamos fome devido ao salário do meu pai, o único que trabalhava, em uma família grande, em tempos difíceis cujo emprego era coisa rara.


Meu pai, hoje um septuagenário, é um homem orgulhoso, honrado e altivo. Certa vez fui a seu trabalho e presenciei uma cena horrível em que o seu patrão o humilhava. Eu, ainda moleque, intervi na defesa do meu progenitor e o seu chefe o desmoralizou pra mim, na sua frente, que cabisbaixo fez sinal para que eu não insistisse e aceitou calado aquela humilhação.


Eu nunca havia visto meu pai daquele modo, confesso que até hoje lembrar desse dia me remete a sentimentos ruins e uma completa impotência. Naquele momento me senti desapontado com ele, afinal a atitude que eu esperava é que ele virasse as costas na primeira ofensa e se demitisse, porém quando conversei com ele sobre o caso aprendi uma lição. Lembro como se fosse hoje quando, em uma conversa particular já em nossa casa, ele me disse: "Filho, eu sou o pai, o líder e como tal tenho responsabilidade com a minha família. Se eu abandonar o emprego terei o meu orgulho, mas a minha família não terá o que comer. Sempre há dilemas assim na vida de um homem, mas quando se é líder é preciso separar o pessoal do institucional". Provavelmente meu pai nem sabia, mas o seu pensamento esta muito alinhado com a política e, sobretudo, com Maquiavel, que ensinou a distinguir a ética pessoal da ética de Estado. 

Dilma, como estadista e líder política do nosso país enfrenta o mesmo dilema diante dos Estados Unidos após o vazamento por Snowden do caso de espionagem. Os da sua casa cobram dela uma atitude altiva, mas desconhecem os riscos para a nação que essa atitude provocará.

Snowden contou a novidade apenas para nós. O líderes mundiais sabiam que eram, em algum nível, espionados e preferiam não "descobrir" oficialmente. O que Edward fez foi vazar para nós e assim, nós, jogamos pressão no governo.

Diante da pressão a Presidenta tem, basicamente, duas opções: Não aceitar o convite norte-americano e ser louvada pela sua coragem e ousadia, mas levando o Brasil, possivelmente, a sofrer represálias do Obama, inclusive algum tipo de embargo econômico que afetaria a nossa balança comercial ou aceitar o convite, deixar o seu orgulho de lado e manter a forte e vantajosa parceria comercial entre os países.

Somente a história dirá se Dilma agiu corretamente, mas a sua decisão me mostra que ela é uma chefe de Estado mais preocupada com o efeito eleitoral do que com os efeitos comerciais. Nesse caso, contudo, não há como condená-la por pensar assim, afinal qualquer decisão que ela tomasse envolveria riscos proporcionais. 



Samuel Farias é filósofo, brasileiro, vascaíno, apaixonado por esportes, inclusive radicais,  amante de boa comida, de música e de cinema, escritor no tempo livre, questionador das banalidades e militante em prol da ética , da liberdade e de uma revolução na educação.

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