A renuncia do Papa - A igreja atemporal

Samuel Farias


R
ecebi um e-mail de um amigo (neo)ateu zombando: “kkk [sic], o papa renunciou, a igreja católica acabou”, ao ler, depois de certa estranheza com a palavra renuncia referindo-se ao Papa, me veio a imagem do trono de São Pedro vazio. Prontamente fui à internet e as manchetes de todos os jornais confirmavam em parte o que esse amigo falara. Em parte porque, de fato, Bento XVI renunciou, no entanto a igreja não acabou, muito pelo contrário.


Não apenas no Brasil, os noticiários especularam teoria de conspiração, crise de poder na igreja, maçonaria, pedofilia e quando o tema era sucessão disseram que o novo papa seria moderno, aceitando a homossexualidade, a consagração de mulheres, pesquisas com células tronco e descriminalização do aborto. Foram muitas bobagens anunciadas, manchetes sensacionalistas com intuito de vender jornal que mais expressam um desejo dos jornalistas do que uma verdade.  A renúncia revela a fragilidade física de um homem sob o peso da responsabilidade histórica, política e espiritual que é assumir o ministério de Pedro e também uma grande habilidade estratégica, evidenciando um líder visionário que posiciona a Igreja para o futuro.

É certo que o período em que Ratzinger esteve encarregado do ministério papal foi muito conturbado. Na tentativa de aproximação dialogal com o islamismo foi mal interpretado quando mencionou as palavras do imperador bizantino: “Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava”. Ele teve também uma série de episódios ruins como o escândalo do banco do Vaticano, que teve 23 milhões de euros bloqueados, o escândalo do seu ex-mordomo, que roubou documentos e os escândalos de pedofilia, que apesar de ele ter se posicionado com veemência, sobretudo em 2010 na carta pastoral aos católicos da Irlanda, viu o corporativismo abafar a situação e arrastar o processo mantendo a impunidade. No entanto, apesar da amargura natural do homem ao se sentir traído, é ingênuo pensar que essas situações levaram o Papa, com a sua experiência, não apenas da idade, mas também pelos anos de auxílio ao seu antecessor, vir a renunciar.

O fato é que a igreja tem perdido membros. Na Europa muitos templos ficam vazios, na América latina vemos crescer o número de evangélicos, neo-petencostais e de “sem religião”, enquanto que a quantidade de fiéis católicos diminui. Soma-se aí a dificuldade na composição de nomes retratada, por exemplo, no déficit de Padres no Brasil (antigamente era um bom negócio ser padre, hoje ser pastor ganha mais e ainda pode casar, descasar e ter filhos).

Atualmente o cristianismo, com exceção dos Estados Unidos, é uma religião de países pobres e emergentes, e que sofrem grande influência do marxismo. Marx põe o homem no centro do mundo. A teologia da Libertação, que deveria se chamar heresia da libertação, baseou-se no pensamento marxista e foi uma tentativa de contaminar a igreja, de transformá-la em mais um partido político, por isso foi combatida pelo então Cardeal Ratzinger. Esse ensinamento influenciou toda a América Latina e diminui Jesus a um Che Guevara, transforma-o em um revolucionário preocupado com a luta de classes.

Essa ideologia trouxe grande prejuízo para a Santa Sé no Brasil. A qualidade do seminário caiu profundamente, representando um prejuízo enorme no posicionamento da fé católica diante do relativismo cultural e da sociedade pós-moderna, por isso vemos padres despreparados, modernistas, que negam sacramentos, que pregam um falso ecumenismo, observamos a desobediência ao magistério e heresias ensinadas aos novos padres no seminário.

A teologia da Libertação é uma forma de adaptar a igreja a sociedade, coloca-la no mundo. A sociedade atual esta preocupada com as suas próprias conquistas pessoais, esta em busca da felicidade e satisfação por meio das coisas materiais e toda essa demanda alcança os cristãos também. É a sociedade do consumo desenfreado, do espetáculo, as pessoas querem ser pop-star, querem liderar, desejam ser servidos. A sociedade pós-moderna tem, portanto, interesse na descriminalização do aborto, não só de fetos encefálicos, na legalização da união homoafetiva, nas pesquisas com célula-tronco, na maior participação das mulheres, no uso dos contraceptivos e dos preservativos, e quer que a igreja se adeque aos seus anseios particulares.

Samuel Farias


Bento XVI entendeu que, diferentemente do que a imprensa imagina, a crise na igreja não é uma disputa de poder, não são os casos de pedofilia e nem a perda de fiéis e sim a influência do mundo atual na vivência da igreja. O Papa tem consciência que o mundo muda, as necessidades e aspirações sociais se transformam com o tempo, mas que a igreja esta fora do tempo, ela tem princípios e esses princípios são irrevogáveis.

Ele sabe que os Macedos, Malafaias e Valdomiros passam, como os pastores norte-americanos passaram, mas a Igreja permanece. Sabe que eles se adaptam à sociedade, pregam o que é conveniente, o que o povo quer ouvir, porque querem quantidade, mas Bento XVI optou pela qualidade dos fiéis. Ele perde membros, mas sabe que os que estão com ele estão alicerçados sobre a rocha e que esses escândalos são apenas chuvas, enchentes e ventos, não abalará a fé católica (Mateus 7:24,25), sabe que o discurso da igreja pode ser duro para a sociedade admitir, algumas pessoas vão se afastar, mas a Igreja é a única que tem as palavras de vida eterna (João 6:60-68) e que, no tempo oportuno, como um filho pródigo o homem tornará à casa do Pai (Lucas 15:11-24).

Samuel Farias

A renúncia tem uma significação estratégica. O Papa expõe ao mundo a diferença de valores, se coloca como apenas um trabalhador da vinha do senhor e que a sua função é servir à Igreja e não ao contrário. No momento em que ele entendeu que fisicamente já não poderia ajudar, preferiu renunciar para que a Igreja não fosse prejudicada, dando um exemplo de humildade e desapego, chocando o mundo que viu João Paulo II, em um estado publicamente mais debilitado, ir até o fim e que imaginava que isso fosse inerente ao Pontificado.

No entanto essa não foi a única significação. Ao renunciar o Papa alertou aos fiéis que há ali um homem, que carrega um ilustre, mas pesado serviço ministerial e que cada católico deve ajuda-lo e sustenta-lo em oração, porque nele esta depositada a verdade revelada por Deus que é eterna. Assim ele centralizou todos os católicos, não nele, mas no ministério de Pedro. Ao se retirar, se sentindo incapaz de levar a Igreja a diante, prepara o caminho para o novo e sai como um mártir, a fim de impedir de forma cabal que o mundo transforme a igreja e a igreja entre no tempo do mundo.

A sociedade esperava uma renovação, Bento XVI trouxe uma restauração. Para muitos isso pode decepcionar, mas ele mesmo disse “Não procuro aplausos, procuro obedecer à verdade” e a verdade para ele é a fé que ilumina a razão. Graças ao Papa, hoje a igreja é o contra ponto no mundo. E o trono vazio nos faz lembrar que independente dos caminhos que a sociedade seguir, do homem que esteja sob a responsabilidade de conduzir a igreja, sempre haverá um contra ponto, sempre haverá o ministério de Cristo e como disse Jacques Le Goff “Pode haver crises, reviravoltas e catástrofes, mas o trono de Deus sempre estará lá”.

Samuel Farias


 


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